sexta-feira, 11 de julho de 2014

Teatro no Brasil: Macumba Antropófaga


Idealizado pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, o espetáculo “Macumba Antropófaga” está em cartaz na cena paulistana todo reformulado. A peça conta com músicas inéditas e formas de atuação ainda mais potencializadas pelo espaço cênico do circo. Por conta de obras na sede da companhia, a peça ocupa temporariamente uma tenda do Circo Zanni, com capacidade para 350 pessoas. Ali, o teatro e o universo circense incorporam-se mutuamente. A “TragiComediOrgya”, como define o diretor José Celso Martinez Corrêa, foi toda reescrita. Houve a inserção de momentos de crise e mudanças radicais no mundo e, principalmente, foram incorporados ao texto três grandes perdas da Uzona Uzyna nos primeiros meses do ano: as mortes da diretora de vídeo Elaine Cesar, do capoeirista Pedro Epifânio, um dos fundadores do Movimento Bixigão (projeto de oficinas para jovens do Bixiga) e do geógrafo Aziz Ab Saber, que tombou o Teatro Oficina. “Estas tragédias trouxeram para a Macumba a energia desses amigos como ‘alimento vivo’ e lembrança eterna”, afirma Zé Celso.
Nada convencional, o espetáculo passeia pelas ruas de São Paulo e a plateia participa ativamente da montagem. O público segue por uma caminhada, onde evoca Cacilda Becker (que recebe em seu corpo Tarsila do Amaral, em frente ao TBC) e Oswald de Andrade, acordado no edifício onde escreveu seu Livro Testamento “Um Homem Sem Profissão Sob as Ordens de Mamãe”. Em seguida, Tarsila, Oswald e o Coro de Tupys criam juntos o instante inaugural da paixão, com a experiência da grande noite de amor que inspirou a criação do livro-comida “Manifesto Antropófago” e o quadro “Abaporú – o Homem que Come o Homem”, a partir da imagem de Oswald nu: “Nesse momento, os atores comem carne de rã para simbolizar o corpo humano. Na antropofagia, não se come somente seus inimigos mais corajosos, mas também seus entes mais amados”. 

 

Macunaíma, vivido por Roderick Himeros, e o Coro de Tupinambás, formado por mais de 40 artistas, fazem baixar Mandú Sarará (Mariano Mattos Martins), Murubixaba (Wilson Feitosa), a Mãe dos Gracos (Vera Barreto Leite) e a Arte Educadora (Naomy Schölling), entre muitos outros. Pagú baixa na atriz Camila Mota, que vive também a Iracema dos lábios de mel e leva com seus beijos Anchieta para o Céu, onde o público encontra-se com as 11 mil virgens reinantes no livro “Manifesto Antropófago”, feito de carne animal e vegetal, servido a todos no final do espetáculo: “Nessa cena dos índios, a plateia é convidada a tirar a roupa junto com os atores. Muita gente volta pra rever o espetáculo porque gosta da liberdade de dançarem nuas”.

Com pouco texto, e muitas músicas o espetáculo tem muitas cenas marcantes, como destaca Zé Celso: “A que o Demônio sobe ao Paraíso por não aceitar mais Deus como pai, mas como amante, e é expulso de lá é uma cena muito bonita”.